domingo, 8 de maio de 2016

Notas sobre o carácter biológico dos cidadãos dos EUA

"Nos EUA o carácter nacional foi cimentado sobre vagas de imigração. Somos uma população seleccionada. Os imigrantes caracterizam-se por uma ambição, energia, motivação e tolerância ao risco invulgares, o que os faz arriscarem-se na busca de melhores oportunidades. Estes traços de personalidade têm uma base biológica. Se semear um continente inteiro com eles, irá obter uma nação de empreendedores."


John Gartner, psicólogo clínico e docente na John Hopkins University of Medical School

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O coração que bate mais forte.

 
Foto: Nova Iorque, perspectiva do observatório do Empire State Building para Norte, Out. 2012.

A Simone de Beauvoir disse, a propósito de Nova Iorque, que haveria qualquer coisa no ar desta cidade que tornava dispensável o acto de dormir, que talvez se devesse ao facto de o coração aqui, em Nova Iorque, batesse mais forte do quem em qualquer outro lugar no mundo.
Talvez tivesse razão.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A ´mesmice´ segundo Alonso Bezerra de Carvalho. Parte II.

«A potencialidade humana é desprezada em nome de uma gerência científica espetacular; a divisão entre aqueles que pensam e aqueles que executam é quase intransponível. A técnica - que muda sempre - tende a racionalizar e dominar a vida humana, tornando-a sempre igual. Seríamos um rebanho a caminho do matadouro.»

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A ´mesmice´ segundo Alonso Bezerra de Carvalho. Parte I.

«A nossa carga diária de atividade faz com que percamos a noção do tempo. Esvaziamos diariamente o passado, perdemos a memória, como também suprimos o futuro. Esquecer o passado é negar toda efetiva experiência de vida; recusar o futuro é abandonar a possibilidade do novo a cada instante. Vivemos sempre o mesmo. Veja, por exemplo, a programação televisiva: repete-se todos os dias a mesma coisa. A memória e a criatividade são nulas, prevalece a ´eternidade´, da qual falava Santo Agostinho.»

quarta-feira, 30 de março de 2011

outra vez.

Há vidas que não vivem na vida que se lhes dá.

domingo, 27 de março de 2011

estrofe 74

«Bloom procurava o insólito que não
sendo acontecimento mudo ou ruído, sendo
sítio, obriga a caminhar. Se o que procuro
chegasse à minha cadeira,
para que me serviriam os sapatos? Mas é já
um conhecimento clássico: acontecimentos novos
existem em espaços novos, e não em antigos.
Não deixes que a tua cadeira confortável prejudique
a tua curiosidade.»

M. Tavares, G., «Uma Viagem à Índia», Editorial Caminho, 2010, p.54.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

CONSELHO PARA ESCRITORES

Mesmo que te mantenha a pé toda a noite,
lava as paredes e esfrega o chão
do teu estúdio antes de compores uma sílaba.

Limpa como se o Papa estivesse para vir.
O asseio imaculado é sobrinho da inspiração.

Quanto mais limpares, mais brilhante
será a tua escrita; não hesites, pois em sair
a campo aberto e lavar a face oculta
das pedras, nem de passar um trapo nos ramos mais altos
das florestas sombrias, pelos ninhos cheios de ovos.

Quando encontrares o caminho de volta para casa
e guardares as esponjas e escovas debaixo do lava-loiça,
contemplarás a luz da aurora,
o altar imaculado da tua secretária
uma superfície limpa no centro de um mundo limpo.

Então, de um pequeno copo, azul reluzente, tira
um lápis amarelo, o mais afiado do bouquet,
e cobre páginas com frases miúdas
como longas filas de formigas devotas,
que te seguiram desde o bosque.


Tradução de José Luís Peixoto de um poema de Billy Collins.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Thoreau

Acorn & Chestnut

“I was not born to be forced. I will breathe after my own fashion. Let us see who is the strongest. What force has a multitude? They only can force me to become like themselves. I do not hear of men being forced to live this way or that by masses of men. What sort of life were that to live? When I meet a government wich says to me: “Your money or your life”, why should I be in haste to give it my money? It may be in a great strait, and not know what to do: I cannot help that. It must help itself; do as I do. It is not worth the while to snivel about it. I am not responsible for the successful working of the machinery of society. I am not the son of the engineer. I perceive that, when an acorn and a chestnut fall side by the side, the one does not remain inert to make way for the other, but both obey their own laws, and spring and grow and flourish as best they can, till one, perchance, overshadows and destroys the other. If a plant cannot live according to its nature, it dies; and so a man.”


Meditations of Henry David Thoreau: A Light in the Woods

domingo, 25 de janeiro de 2009

Génio

quem é justo tem que conhecer estas duas músicas para reconhecer aquilo que não é suficientemente conhecido. conhecem? querem conhecer?

Pessoas, isto é História. Isto é de 1972. Ouvindo hoje ainda é tão original, tão lindo e fresco!

Porra que isto é bom!


"you don´t know me"

Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show meFrom behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall

Laia ladaia sabadana ave maria
Laia ladaia sabadana ave maria

Eu agradeço ao povo brasileiro
Norte, centro, sul inteiro
Onde reinou o baião

http://www.youtube.com/watch?v=V9VWTul_Pf0
Caetano Veloso
"nine out of ten"
Walk down Portobello road to the sound of reggae
I’m alive
The age of gold, yes the age of
The age of old
The age of gold
The age of music is past
I hear them talk as I walk yes I hear them talkI hear they say
Expect the final blastWalk down Portobello road to the sound of reggae
I’m alive
I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
Feel the sound of music banging in my belly
Know that one day I must die
I’m alive
I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
In the Eletric Cinema or on the telly, telly, telly
Nine out of ten movie stars make me cryI’m alive
And nine out of ten film stars make me cryI’m alive
Caetano Veloso

diarreia prestidigitativa

este é a primeira mensagem deste blogue, no ano de 2009.

quero dizer que não tenho nada para dizer. minto. tenho pensamentos, frase coladas, expressões exóticas, teorias que li e teorias que criei a partir de alguma frase que me fez produzir um parágrafo, verbos novos na minha gramática, mas.. por que então não as escrevo, não os partilho?! não sei. não tenho que saber tudo, é certo. porém, não seria errado, ou pouco legítimo saber responder a estas interrogações puras. penso muitas vezes a razão pela qual tenho um blogue. não irei agora procurar uma solução para este não-problema. devo-vos dizer que tenho uma dor nas costas pela posição que as mesmas ocupam na minha cama. e que as minhas pernas estão a ficar quentes pela insistÊncia doentia em manter o computador em cima destas reverendas.

agora que já fiz diarreia prestidigitativa já estou 0.00001% melhor do meu estômago cerebral.

sábado, 8 de novembro de 2008

A História não é o passado. É a vida.

Ouvi o discurso do Presidente eleito estado-unidense, Barack Obama, sentado à mesa da minha cozinha. Eram 04h58m, madrugada de Quarta-feira, dia 5 de Novembro 2008. Menos 5h, e um dia, em Chicago, estado do Illinois.

Passo a citar, para que fique registado neste blogue (se acharem um texto muito grande para ler, não faz mal. Um dia os vossos filhos explicar-vos-ão):



"If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible; who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.

It’s the answer told by lines that stretched around schools and churches in numbers this nation has never seen; by people who waited three hours and four hours, many for the very first time in their lives, because they believed that this time must be different; that their voice could be that difference.

It’s the answer spoken by young and old, rich and poor, Democrat and Republican, black, white, Latino, Asian, Native American, gay, straight, disabled and not disabled – Americans who sent a message to the world that we have never been a collection of Red States and Blue States: we are, and always will be, the United States of America.

It’s the answer that led those who have been told for so long by so many to be cynical, and fearful, and doubtful of what we can achieve to put their hands on the arc of history and bend it once more toward the hope of a better day.

It’s been a long time coming, but tonight, because of what we did on this day, in this election, at this defining moment, change has come to America.

I just received a very gracious call from Senator McCain. He fought long and hard in this campaign, and he’s fought even longer and harder for the country he loves. He has endured sacrifices for America that most of us cannot begin to imagine, and we are better off for the service rendered by this brave and selfless leader. I congratulate him and Governor Palin for all they have achieved, and I look forward to working with them to renew this nation’s promise in the months ahead.

I want to thank my partner in this journey, a man who campaigned from his heart and spoke for the men and women he grew up with on the streets of Scranton and rode with on that train home to Delaware, the Vice President-elect of the United States, Joe Biden.

I would not be standing here tonight without the unyielding support of my best friend for the last sixteen years, the rock of our family and the love of my life, our nation’s next First Lady, Michelle Obama. Sasha and Malia, I love you both so much, and you have earned the new puppy that’s coming with us to the White House. And while she’s no longer with us, I know my grandmother is watching, along with the family that made me who I am. I miss them tonight, and know that my debt to them is beyond measure.

To my campaign manager David Plouffe, my chief strategist David Axelrod, and the best campaign team ever assembled in the history of politics – you made this happen, and I am forever grateful for what you’ve sacrificed to get it done.

But above all, I will never forget who this victory truly belongs to – it belongs to you.

I was never the likeliest candidate for this office. We didn’t start with much money or many endorsements. Our campaign was not hatched in the halls of Washington – it began in the backyards of Des Moines and the living rooms of Concord and the front porches of Charleston.

It was built by working men and women who dug into what little savings they had to give five dollars and ten dollars and twenty dollars to this cause. It grew strength from the young people who rejected the myth of their generation’s apathy; who left their homes and their families for jobs that offered little pay and less sleep; from the not-so-young people who braved the bitter cold and scorching heat to knock on the doors of perfect strangers; from the millions of Americans who volunteered, and organized, and proved that more than two centuries later, a government of the people, by the people and for the people has not perished from this Earth. This is your victory.

I know you didn’t do this just to win an election and I know you didn’t do it for me. You did it because you understand the enormity of the task that lies ahead. For even as we celebrate tonight, we know the challenges that tomorrow will bring are the greatest of our lifetime – two wars, a planet in peril, the worst financial crisis in a century. Even as we stand here tonight, we know there are brave Americans waking up in the deserts of Iraq and the mountains of Afghanistan to risk their lives for us. There are mothers and fathers who will lie awake after their children fall asleep and wonder how they’ll make the mortgage, or pay their doctor’s bills, or save enough for college. There is new energy to harness and new jobs to be created; new schools to build and threats to meet and alliances to repair.

The road ahead will be long. Our climb will be steep. We may not get there in one year or even one term, but America – I have never been more hopeful than I am tonight that we will get there. I promise you – we as a people will get there.

There will be setbacks and false starts. There are many who won’t agree with every decision or policy I make as President, and we know that government can’t solve every problem. But I will always be honest with you about the challenges we face. I will listen to you, especially when we disagree. And above all, I will ask you join in the work of remaking this nation the only way it’s been done in America for two-hundred and twenty-one years – block by block, brick by brick, calloused hand by calloused hand.

What began twenty-one months ago in the depths of winter must not end on this autumn night. This victory alone is not the change we seek – it is only the chance for us to make that change. And that cannot happen if we go back to the way things were. It cannot happen without you.

So let us summon a new spirit of patriotism; of service and responsibility where each of us resolves to pitch in and work harder and look after not only ourselves, but each other. Let us remember that if this financial crisis taught us anything, it’s that we cannot have a thriving Wall Street while Main Street suffers – in this country, we rise or fall as one nation; as one people.

Let us resist the temptation to fall back on the same partisanship and pettiness and immaturity that has poisoned our politics for so long. Let us remember that it was a man from this state who first carried the banner of the Republican Party to the White House – a party founded on the values of self-reliance, individual liberty, and national unity. Those are values we all share, and while the Democratic Party has won a great victory tonight, we do so with a measure of humility and determination to heal the divides that have held back our progress. As Lincoln said to a nation far more divided than ours, “We are not enemies, but friends…though passion may have strained it must not break our bonds of affection.” And to those Americans whose support I have yet to earn – I may not have won your vote, but I hear your voices, I need your help, and I will be your President too.

And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world – our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down – we will defeat you. To those who seek peace and security – we support you. And to all those who have wondered if America’s beacon still burns as bright – tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from our the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.

For that is the true genius of America – that America can change. Our union can be perfected. And what we have already achieved gives us hope for what we can and must achieve tomorrow.

This election had many firsts and many stories that will be told for generations. But one that’s on my mind tonight is about a woman who cast her ballot in Atlanta. She’s a lot like the millions of others who stood in line to make their voice heard in this election except for one thing – Ann Nixon Cooper is 106 years old.

She was born just a generation past slavery; a time when there were no cars on the road or planes in the sky; when someone like her couldn’t vote for two reasons – because she was a woman and because of the color of her skin.

And tonight, I think about all that she’s seen throughout her century in America – the heartache and the hope; the struggle and the progress; the times we were told that we can’t, and the people who pressed on with that American creed: Yes we can.

At a time when women’s voices were silenced and their hopes dismissed, she lived to see them stand up and speak out and reach for the ballot. Yes we can.

When there was despair in the dust bowl and depression across the land, she saw a nation conquer fear itself with a New Deal, new jobs and a new sense of common purpose. Yes we can.

When the bombs fell on our harbor and tyranny threatened the world, she was there to witness a generation rise to greatness and a democracy was saved. Yes we can.

She was there for the buses in Montgomery, the hoses in Birmingham, a bridge in Selma, and a preacher from Atlanta who told a people that “We Shall Overcome.” Yes we can.

A man touched down on the moon, a wall came down in Berlin, a world was connected by our own science and imagination. And this year, in this election, she touched her finger to a screen, and cast her vote, because after 106 years in America, through the best of times and the darkest of hours, she knows how America can change. Yes we can.

America, we have come so far. We have seen so much. But there is so much more to do. So tonight, let us ask ourselves – if our children should live to see the next century; if my daughters should be so lucky to live as long as Ann Nixon Cooper, what change will they see? What progress will we have made?

This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time – to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the American Dream and reaffirm that fundamental truth – that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can’t, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people:

Yes We Can. Thank you, God bless you, and may God Bless the United States of America."

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A flor absolve o martelo?

"Uma alma que fosse posssível considerar responsável por todo e qualquer acto cometido teria de levar-nos, forçosamente, a reconhecer a total inocência do corpo, reduzido a ser o instrumento passivo de uma vontade, de um querer, de um desejar não especificamente localizáveis nesse mesmo corpo. A mão, em estado de repouso, com os seus ossos, nervos e tendões, está pronta para cumprir no instante seguinte a ordem que lhe for dada e de que em si mesma não é responsável, seja para oferecer uma flor ou para apagar um cigarro na pele de alguém. Por outro lado, atribuir, a priori, a responsabilidade de todas as nossas acções a uma identidade imaterial, a alma, que, através da consciência, seria, ao mesmo tempo, juiz dessas acções, conduzir-nos-ia a um círculo vicioso em que a sentença final teria de ser a inimputabilidade. Sim, admitamos que a alma é responsável, porém, onde é que está a alma para que possamos pôr-lhe as algemas e levá-la ao tribunal? Sim, está demonstrado que o martelo que destroçou o crânio desta pessoa foi manejado por esta mão, contudo, se a mão que matou fosse a mesma que, tão inconsciente de uma coisa como da outra, tivesse simplesmente oferecido uma flor, como poderíamos incriminá-la? A flor absolve o martelo?"

Prólogo de José Saramago do livro - El alma de los verdugos, ed. RBA - de Baltasar Garzón e Vicente Romero.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Foste lá?"

"És feliz? És feliz? - perguntou. - Diz-me uma palavra apenas, és feliz agora? Hoje, neste instante?"
F. D. in "I."

Sir Beckett

"Naquela altura eu não percebia as mulheres.
Aliás agora também não.
Nem os homens.
Nem os animais.
O que percebo melhor, e não é dizer muito,
são as minhas dores."

Samuel Beckett, Primeiro Amor

terça-feira, 19 de agosto de 2008

" Uma História de Cão"

"Era uma vez era uma vez. E era uma vez quantas vezes era uma vez. Às vezes é que não podia ser uma vez. Numa dessas vezes encontrei um cão. Era um cão que falava, como acontece às vezes. Até se podia dizer: era uma vez um cão que falava.
- Queres dizer-me alguma coisa? perguntei-lhe.
E ele disse:
- Desde quando é que os cães falam?
Olá, pensei, este é um cão filósofo. Os cães que não ladram são todos assim: põem-se a pensar. Eu é que não estava a pensar, como ele. Nos nossos dias, já só os cães é que pensam. Conheci alguns cães filósofos, como aquele; mas nenhum me tinha feito perguntas.
E comecei a minha história: era uma vez um cão filósofo. O cão era preto" (...)

in " Uma História de Cão" de Nuno Júdice (Ilustrações de Evelina Oliveira)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Fazer E Ter

Hoje fez sol. Amanhã faz 5 anos que eu fui a sevilha ver a minha irmã. Tenho saudades dela. Tenho também um livro do Proust para ler no Domingo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Crítica | Cinema Femme Fatal» (2002) Brian De Palma

Neste filme de Brian De Palma sabemos que existe, desde logo, uma femme fatale. O título indica-nos, é certo, todavia, é a linguagem meta-thriller quem se encarrega desta tarefa, e logo na primeira sequência do filme. Vemos uma actriz, que já sabemos que será a personagem principal fruto da publicidade da capa do respectivo DVD, a visionar o filme Double Indemnity (1944), cuja personagem principal interpretada por Barbara Stanwyck é uma femme fatale. Com este dado não será difícil chegar à conclusão de que a actriz perfilha o trilho fatalista. Adopta, então, não só a característica de mulher-fatal, como também o seu conceito adjacente de noir. Os ambientes estão repletos de subtis dicas visuais que têm o dom de nos fazer equivocar na tentativa de quem é ali o quê. De Palma é traiçoeiro como se fosse ele um homme fatale.



A mulher fatal, essa, é Rebecca Romijn, que a interpreta de um modo admirável. Admirável por ser à altura do filme uma quase desconhecida actriz e por isso uma feliz aposta e uma agradável surpresa. Admirável também por não ser todos os dias que uma actriz tão incrivelmente bela representa este papel de múltiplos sentidos. A sua personagem é alguém que de repente se viu exposta ao mundo, e por isso aos seus inimigos - os cúmplices ludibriados aquando da cena do histórico roubo de diamantes, perpetuado por si, em pleno Festival de Veneza - por um fotográfo, personagem de Antonio Banderas - que é uma muito provável homenagem ao Blow Up (1966) de Antonioni. Personagem esta que o actor decidiu aceitar ainda que secundária. Mostra-nos um Banderas pouco aproveitado - ser-se secundário não é desculpa alguma, caindo a culpa por inteiro no realizador. No total da sua representação fica para registo uma interpretação pouco profunda, levemente versátil. Talvez a comunidade gay, fã do galã espanhol, se delicie, a dado momento, pela sua interpretação de uma personagem homossexual estereotipada.



De Palma é um homem que pensa muito nos pormenores dos seus filmes. A criatividade e a riqueza fílmica são características que se lhe louvam, renovadamente, neste filme. Consegue, de forma habilidosa, desorientar o espectador a todo o distante. As suas sequências neste filme faz-nos acreditarem numa hipótese, para logo a seguir virar essa mesma hipótese numa outra. Ele joga com o espectador ao mesmo tempo que brinca com a estética: ecrãs divididos, câmara lenta, harmonia entre luz e sombra. É sem dúvida em termos visuais um filme cheio. A música do reputado compositor japonês Ryuichi Sakamoto desenvolve toda esta relação promíscua entre os vários - ou será imensos? - elementos fílmicos, num cenário de enamoramento do realizador por uma Paris cheia de clichés: a Torre Eiffel, os seus cafés, o seu pão..



A homenagem à cidade luz é apenas mais uma. Porque as mais importates são as que são feitas a dois realizadores que ele tanto aprecia. Alfred Hitchcock, aqui, essencialmente por Vertigo (1958), e o seu Brian De Palma. Correcto, ele próprio. De Palma auto-homenageia-se através da revisitação a filmes seus: Blow Out/Explosão (1981); Testemunha De Um Crime (1984). Recorre, pois então, a temas fetiches que teimam em reaparecer, tais como: mulheres, erotismo, e suspense. O caso da cena de lesbianismo, aquando do referido roubo, é completamente gratuita, um autêntico acto de auto-satisfação pura e egoísta. Ele próprio se explica através de uma ligação-artéria que vem de uma explicação-veia postiça, absurda, que não lembra a ninguém a não ser em filmes de fantasia série C. O filme é todo ele um thriller de contornos fantasiosos. Pegando de novo, na lógica do argumento, ou melhor, na falta dela, é a acusação de carácter mais gravoso que este filme sofre. Sofre porque o filme não a admite. É portanto, um caso passível de ser considerado de embuste. Este filme irá dividir os espectadores. Os mais respeitosos da típica estrutura narrativa americana e dos seus códigos fílmicos sentir-se-hão, quase de certeza, enganados. Os mais favoráveis à exploração de novas regras - neste caso será mais a ausência delas - poderão ficar bem-dispostos ao assistirem a esta película.



O cinema é, tal como Grotowski definiu o seu teatro, um laboratório. Como tal, que se façam experiências, ainda que só se aproveite a sua estética, se for uma estética apurada. Que é o caso.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Crítica | Cinema Saraband (2003) Ingmar Bergman

Saraband (2003) nasce por modo de uma gestação de 30 anos. Sendo fruto de um sazonamento de uma produção, de enorme sucesso, exibida na televisão sueca: Cenas De Um Casamento (1973). O ponto de partida é a separação, por meio do divórcio, das personagens principais Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) que transitam para este filme. E com elas circulam toda uma série de ligações muito subtis. Destaque para uma garrafa de conhaque de Paula, a amante de Johan; as referências aos poemas de Johan, entre outros pormenores.
Para se compreender Saraband na sua totalidade, é necessário ver Cenas De Um Casamento. É inegável esta afirmação. Porém, não é imperativa. Ou seja, o que o torna uma obra excepcional é o facto de que se for visto de forma isolada, não dará ao espectador a sensação de que o filme lhe escapa. Não é dependente do seu congénere mais velho. O que ainda abrilhanta mais a estrela que ele é. Ele é filho de um outro filme, mas é um filho adulto à partida. Em Saraband, Bergman acrescenta duas personagens: o filho de Johan, com outra mulher, Henrik (Börje Ahlstedt) e a filha deste, Karin (Julia Dufvenius). O que dispersa o ar pesado, respirado neste drama, por mais personagens para além das duas que transitam para esta obra. Tal como em Cenas De Um Casamento, Ingmar Bergman, filma em grandes planos, típicos das filmagens de TV; utiliza a técnica da forte densidade dramática dos diálogos, dando corpo a uma construção assinalável no drama. Lembra uma influência dos dramas psicológicos das peças de teatro de Strindberg, e de Ibsen, seus conterrâneos nórdicos.
Este é um filme que nos pode remeter para um outro imaginário artístico. Isto por que o filme é divido em capítulos, partes separadas uma de outra, e outra de uma, e de outra de outra, etc.. até perfazer as 11 partes integrantes deste objecto narratológico. Incluíndo um prólogo, e um epílogo. Podia ser uma exposição de pintura pela sua divisão em quadros, ou, numa comparação mais próxima, uma peça de teatro de Strindberg separada em actos.
Representa uma obra de arte contemporânea, por um dos maiores problemas actuais: a falta de comunicação inter-humana. Ingmar Bergman faz comunicar este filme a partir de uma espécie de documentário, que Marianne materializa, até pela consciência que tem da câmara, no prólogo. Assiste-se, portanto, a uma anulação da 4º parede - conceito teatral - que lhe dá o lugar de narradora nesta viagem que faz à casa de campo de Johan. Sitada numa paisagem que é, por direito próprio, uma personagem na filmografia sueca em geral, e na estação predilecta nas filmagens de Bergman em particular - o Outono.
Voltando ao tema de comunicação, ou da não-comunicação, as personagens masculinas são incapazes de comunicarem entre si. Isto é, elas falam, mas nunca chegam a um lugar-comum. Quando confrontadas entre si atingem o auge desta incapacidade que as personagens deste filme possuem. O quadro/acto em que Henrik visita o seu pai Johan é lúcido sobre este aspecto. A profunda falta de comunicação pelo mau carácter de Johan, proveniente desde a adolescência de Henrik, para com o seu filho é de uma ácida hostilidade de meter arrepios. No jogo de homens-mulheres continua a não haver uma comunicação verbal saudável, mas quando o assunto é uma mulher, Anna, a mulher falecida de Henrik, assiste-se a um ligeiro aperfeiçoamento. Já na dança das duas personagens femininas conseguimos atingir uma comunicação que, embora não seja de completa verbalidade, atinge o seu ponto maior de proficuidade. Os gestos e carinhos falam, na relação de um género que se entende por outros sentidos - o feminino.
Outro elemento fílmico que não merece ser esquecido é o do compositor Bach - Bergman reserva-lhe até o seu nome para um capítulo. Grande parte da banda sonora é de composições suas. Destaque para a 5ª Sarabanda por violoncelo. Não só dá o nome ao filme este movimento de composição musical característico do barroco, como é tocada por um instrumento - o violoncelo, também ele característico deste movimento pelo compositor alemão neste período - que tem a sua importância, apenas por que existe nele. Mas, acima de tudo, por que esta sarabanda tem toda ela características do filme: é introspectiva e é nostálgica. O apenas é a metáfora para sublinhar que nada no filme de Ingmar Bergman é colocado de forma gratuita. Tudo o que aparece no ecrã desempenha a sua função de forma competente e inteligente, tal como os pormenores que transitam para este filme.
Uma obra artística de Ingmar Bergman, notável pela sua abordagem à humanidade humana, que insiste em viver semelhantes problemas familiares, não obstante as diferenças geracionais. E tudo isto com exímias interpretações que, enquadradas numa estética que de tão simples e deslumbrante, almejam a nobreza da arte. E cumpre a função maior de qualquer objecto artístico - o permitir uma séria reflexão sobre a vida.

Crítica | Cinema Asas Do Desejo (1987) Wim Wenders

Wim Wenders utiliza o poema de Peter Handke, Song of a Childhood, como alavanca para nos guiar numa reflexão profundíssima sobre o carácter humano. Numa cidade que foi semente/violada da/pela 2ª Guerra Mundial - onde material documental faz questão de nos relembrar - Berlim, berço do humanismo, serve agora de cenário de um re-humanismo. Necessário pelo duro reencontro do homem com a cidade do pós-guerra, e da consequente desintegração do povo alemão

Nos últimos anos da guerra fria, a celebração do ser humano é construída por um anjo, Damiel [Bruno Ganz]. Inadaptado na sua intemporalidade espiritual apaixona-se por uma trapezista, Marion [Solveig Dommertin], também ela inadaptada a uma cidade onde se sente estrangeira.

Damiel decide quebrar um muro que separa o espiritual do material. Que pode servir de catárse do desejo de quebra do muro de Berlim. Resolve experimentar os sentimentos, que através da leitura dos pensamentos que faz dos humanos têm um frio contacto. Torna-se humano para os experimentar a quente. Esta passagem para a vida terrena é acompanhada pela passagem para um mundo de cores - tal como nós espectadores - que saindo da sépia que fora a vida na perspectiva angelical, é assaltado pela vida colorida de todos os possíveis sentidos humanos.
O anjo, que é um não-nascido, nasce agora. É inocente. Tal como uma criança do poema de Peter Handke. Tal como o velho que se diz ser o narrador da humanidade, e que dela possui a inocência da infância. Damiel torna-se na personificação de um homem ideal à partida, virgem, como ``uma criança quando era criança´´, [primeiro verso do poema de Peter Handke] para este mundo que pode ser o apocalípso, como também ser o palco do amor.

A cena em que Nick Cave & The Bad Seed cantam From Her To Eternity é precisamente esta celebração do amor com que se pretende reconstruir Berlim. De Marion - From Her - ganhou o amor para a eternidade - To Eternity - não a que Damiel perdeu ao deixar de ser anjo para ser um mortal com certidão de óbito, mas a que ganhou ao ter o amor verdadeiro, aquele que jamais sofre a passagem inexorável do tempo.

A voz-off, tem neste filme de Wenders, uma pujança fílmica que lhe confere um alto ritmo de narração. Dá ao espectador, como bom paradigma de voz-off que é, a possibilidade de se experimentar como narrador, de se sentir por dentro do filme. E que por isso não lhe fica, por certo, indiferente a um dos mais belos filmes das últimas décadas do cinema europeu. Um filme épico. Um road movie nos céus de Berlim, e no espírito humano.